
A violência contra a mulher nem sempre deixa marcas no corpo. Em muitos casos, ela se manifesta por meio de humilhações, ameaças, manipulação, isolamento, vigilância e controle sobre escolhas e comportamentos.
Por não apresentar necessariamente sinais físicos, a violência psicológica pode ser mais difícil de identificar. Algumas atitudes podem ser confundidas com ciúme, preocupação, proteção ou conflitos comuns de um relacionamento, especialmente quando começam de forma gradual.
No entanto, comportamentos que causam dano emocional, diminuem a autoestima ou buscam controlar a liberdade e as decisões de uma mulher não devem ser naturalizados.
Durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, falar sobre essas situações contribui para ampliar o acesso à informação e facilitar o reconhecimento de diferentes formas de violência.
O que é violência psicológica contra a mulher?
A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Ela pode ocorrer por meio de condutas que causem dano emocional, prejudiquem a autoestima ou tenham como objetivo controlar ações, comportamentos, crenças e decisões.
Entre os exemplos apresentados pela própria legislação estão ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização e limitação do direito de ir e vir.
Desde 2021, a violência psicológica contra a mulher também está prevista especificamente no Código Penal brasileiro, no artigo 147-B.
A existência dessas previsões legais ajuda a compreender um ponto importante: a violência não precisa ser física para ser reconhecida como violência.
Quais comportamentos merecem atenção?
Cada situação possui suas particularidades, mas alguns comportamentos podem indicar uma relação marcada por violência psicológica, principalmente quando são recorrentes e utilizados para intimidar, diminuir ou controlar a mulher.
Entre eles estão:
- humilhações e insultos frequentes;
- ameaças e intimidações;
- chantagem emocional;
- tentativas de afastamento de familiares e amigos;
- vigilância constante;
- controle sobre lugares frequentados ou pessoas com quem a mulher se relaciona;
- ridicularização de suas escolhas, opiniões ou capacidades;
- manipulação de decisões;
- restrição da liberdade;
- comportamentos destinados a fazer com que a mulher duvide de suas próprias percepções e decisões.
Não é necessário que todos esses comportamentos estejam presentes ao mesmo tempo. Além disso, identificar uma situação de violência nem sempre é um processo simples.
Por isso, informação e acolhimento são fundamentais.
Quando o controle é apresentado como cuidado
“É porque eu me preocupo com você.”
“Se você me ama, não precisa sair com essas pessoas.”
“Por que você precisa esconder a senha do seu celular?”
Frases e comportamentos de controle podem aparecer acompanhados de justificativas relacionadas a amor, cuidado ou proteção.
Entretanto, tentar determinar com quem uma mulher pode conversar, controlar suas roupas, fiscalizar constantemente seu celular, impedir contatos com familiares e amigos ou decidir onde ela pode ir são comportamentos que interferem em sua liberdade e autonomia.
Relacionamentos saudáveis pressupõem respeito, diálogo e liberdade. Cuidado não deve significar controle sobre a vida da outra pessoa.

Por que pode ser tão difícil perceber?
A violência psicológica pode acontecer de maneira progressiva.
Algumas situações começam com comentários, cobranças ou restrições aparentemente pequenas e passam a se repetir ou se intensificar ao longo do tempo. Com isso, determinados comportamentos podem acabar sendo incorporados à rotina da relação.
Também existem fatores emocionais, familiares, sociais e econômicos que podem tornar ainda mais difícil reconhecer uma situação de violência ou buscar ajuda.
Por essa razão, culpar ou julgar uma mulher por permanecer em uma relação abusiva não contribui para sua proteção.
Escutar, acolher e oferecer informações sobre direitos e serviços disponíveis pode ser muito mais importante.
A Lei Maria da Penha vai além da violência física
A agressão física é apenas uma das formas de violência doméstica e familiar reconhecidas pela legislação brasileira.
Atualmente, a Lei Maria da Penha prevê seis formas:
- violência física;
- violência psicológica;
- violência sexual;
- violência patrimonial;
- violência moral;
- violência vicária.
A violência vicária foi incluída na legislação em 2026 e se refere, em síntese, à violência praticada contra pessoas ligadas à mulher — como descendentes, ascendentes, dependentes ou integrantes de sua rede de apoio — com a finalidade de atingi-la.
Conhecer essas diferentes manifestações é importante porque amplia a compreensão sobre situações que podem exigir atenção, orientação e proteção.
Onde buscar orientação e ajuda?
Mulheres em situação de violência podem procurar os serviços que integram a rede de atendimento, como Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Defensoria Pública, Ministério Público, Centros de Referência e outros serviços disponíveis em cada município ou região.
Também existe a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180, serviço gratuito do Governo Federal que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.
Por meio do Ligue 180 é possível receber orientações sobre direitos, obter informações sobre os serviços especializados disponíveis e registrar denúncias para encaminhamento aos órgãos competentes.
O atendimento pode ser acessado pelo telefone 180 ou pelo WhatsApp (61) 9610-0180.
Em situações de emergência ou risco imediato, deve ser acionada a Polícia Militar pelo telefone 190.

Informação também é uma forma de prevenção
Falar sobre violência psicológica ajuda a tornar visíveis comportamentos que muitas vezes são silenciados ou naturalizados.
O Agosto Lilás amplia nacionalmente essa discussão e chama atenção para a importância da prevenção, da informação e do enfrentamento às diferentes formas de violência contra as mulheres.
Conhecer os sinais não significa diagnosticar relações ou julgar histórias que não conhecemos. Significa ampliar o acesso à informação para que mais pessoas consigam identificar comportamentos preocupantes e saibam que existem direitos e serviços de orientação e proteção.
Quando as marcas não podem ser vistas, informação, escuta e acolhimento tornam-se ainda mais importantes.
